Tema recorrente na opinião publica Nacional, a relação (ou se calhar a ralação) com Espanha é daqueles assuntos que angustia uns e entusiasma outros. Trata-se, tal como o assunto “Salazar”, algo que divide os meus compatriotas entre os partidarios da Espanha-fobia e os partidários da Espanha-filia.Os primeiros tendem a temer tudo o que vem do lado de lá da fronteira, dizem aos amigos que “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”, abusaram das nossas queridas caravelas para uma aventura desastrosa frentes ao Ingleses chamada de “Armada Invencível”, aquela coisa da guerra civil foi uma carnificina de gente barbara, Franco era demasiado amigo dos Nazis para o nosso gosto, e para eles o melhor momento da nossa relação com Espanha era quando se iam comprar caramelos a Badajoz a metade do preço.
Já para os segundos, Espanha é um país grandioso, cerca de 5 vezes maior que Portugal, economia feroz com muitas oportunidades em empresas fortes, como Repsol, Seat, Zara, Corte Inglês, Sacir, Santander, La Caixa, enfim… o ordenado mínimo por lá é cerca do dobro do nosso, competem com a França e a Inglaterra no índice de desenvolvimento económico enquanto nós somos humilhados pela generalidade dos países do leste europeu. Por outro lado, os Espanha-filiacos ainda argumentam com os reinados de Filipe I e II (séc. XVI/XVII), para fundamentarem a ideia de que os Espanhóis nem se saíram assim tão mal em terras lusas.
Tudo isto cruza a minha cabeça à velocidade aproximada de um TGV, motivado pelo facto de esta semana Sócrates se ter ido encontrar com Zapatero em Zamora, para mais uma cimeira Luso-Espanhola. Foi nessa localidade Espanhola que a 5 de Outubro de 1143 (4 anos após a vitória lusa na batalha de Ourique) os Reis Afonso Henriques e Afonso III de Leão e Castela assinaram a paz, tendo o monarca do que é hoje a Espanha reconhecido ao condado Portucalense a sua condição de Reino.
Ora, e o que temos hoje em dia? Sócrates foi a Zamora acertar detalhes sobre um centro de investigação comum a instalar em Badajoz, sobre o TGV e o traçado a ligar os dois países, sobre a constituição do OMI – Operador do mercado Ibérico, para a área da energia, o intercâmbio na área da saúde (para bebés portugueses nascerem em Espanha), entre outros acordos e protocolos a assinar com Zapatero.
Tudo muito bem, de facto não queremos congelar a nossa relação com o nosso maior parceiro comercial (30% das nossas exportações são para lá). Contudo, atenção, o gigante vizinho não olha para nós da mesma maneira. Na verdade, toma paulatinamente posição dominante em empresas nacionais, oferecendo o tacho de um outro lugar de administração aos políticos que facilitam as tomadas de posição (não vale a pena dizer nomes pois não?), numa se quis vincular a um acordo com Portugal no domínio do uso dos rios internacionais, para além da central nuclear que colocou às nossas costas, ainda se prepara para construir uma mega refinaria em Balboa a 60 kms de Portugal, e um super aeroporto em Badajoz para servir, entre outras coisas, de plataforma para os futuros investimentos turísticos na zona do Alqueva (que nós pagamos e construímos para eles).
Tudo isto enquanto, até ao momento presente, não há memória ou conhecimento de que uma empresa Portuguesa tenha alguma vez ganho um concurso público em Espanha… Se eu fosse Espanhol com um projecto para tornar toda a península numa só Ibéria, certamente não estaria descontente com o actual estado de coisas… Para mais sabendo que, se em Portugal existissem Políticos à prova de bala, provavelmente este país à muito que já teria ido á procura de diversificar as suas relações comerciais com outros parceiros menos suspeitos… Para mais sabendo que, ultimamente, Angola (aquisições de participações na banca, jornais, e algumas empresas) mas também o Brasil (Embraer) têm olhado para nós com renovado interesse.
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