sexta-feira, 30 de maio de 2008

Os Novos Pobres


Ontem recebi uma carta do meu banco com um cheque de 17.500 Euros para eu gastar como bem entendesse. Em letras mais pequeninas dizia que o respectivo crédito seria pago em suaves prestações mensais de “apenas” 400 Euros. Destino de tal carta: Lixo.
É por este tipo de assédio que a taxa de poupança das famílias fixou-se nos 8,3% em 2006, o nível mais baixo desde 1961, ano em que esta taxa estava nos 6,96%, segundo dados disponibilizados pelo Banco de Portugal (BdP). O ano de 2007 foi o terceiro consecutivo em que houve uma quebra da taxa de poupança das famílias.
No país circulam mais de 17 milhões de cartões de débito e de crédito! (somos cerca de 10 milhões…), e segundo dados do Banco de Portugal, a taxa de endividamento dos particulares era de 40% em 1995 e de 124% em 2006. Até Bruxelas considera "preocupante" o nível de endividamento das famílias resultante dos créditos fácil e cegamente concedidos, que considera ser insustentável em diversos Estados-Membros, apontando o dedo a Portugal, Espanha. Alemanha, Luxemburgo, Holanda e Irlanda. Com tudo isto, os pedidos de ajuda à DECO dispararam 118% em 2007.
Tudo corria bem para a banca e para a economia, isto porque, segundo o modelo neo-liberal defendido por grandes teóricos da economia como M. King e I. Fisher, ao endividamento corresponderia a uma equivalente entrada de activos no património familiar e consequente melhoria do nível de vida.
No entanto, a realidade (como sempre) estragou a perfeita teoria neo-liberal. Assim, a subida das taxas de juro, do preço do petróleo e a concorrência feroz dos Asiáticos, levou milhares de famílias para o desemprego e para a insolvência. A ignorada e ultrapassadíssima taxa máxima de esforço para contrair empréstimos está a fazer as suas vítimas, eles são os novos pobres, vítimas do neo-liberalismo que este governo “socialista” também pratica e defende, e contra quem inevitavelmente se vão virar... “Quem vos avisa vosso amigo é”.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O Maio de 2008




Aproveitando a feliz coincidência de termos entre nós o antigo membro do movimento maoísta Gauche Prolétarienne e activista do Maio de 68, Olivier Rolin (que esteve em Lisboa para lançar o seu último livro, Suíte no Hotel Crystal) e ainda, o facto de este ano perfazem precisamente 40 anos sobre o Maio de 68, julgo ser oportuno pensar um pouco sobre o Maio de 2008.

O Maio de 68 foi espoletado por uma crise social em França. A juventude da época (onde pontificava, entre outros, Rolin) era revolucionária, utópica e radical e pretendia uma sociedade nova. Frases como “O amor ao poder” e a inspiração ideológica de cariz maoísta, levavam os jovens de então a acreditar que o futuro viria da Revolução Cultural chinesa (ainda que com alguma tónica libertária e anarca).

O Maio de 2008 é vivido com esses mesmos jovens de então (agora nos seus 60 anos), digníssimos Empresários, Gestores, Advogados, Engenheiros, etc… a dizer aos filhos (nos trintas, como eu), que não é racional pretender segurança laboral que o neo-liberalismo é a única doutrina económica possível e que as ideologias morreram em função do pragmatismo do “mercado comum”, da “união económica” e da “livre circulação de pessoas e capitais”.

Menos Estado, menos despesa pública, mais insegurança, melhor produtividade, mais despedimentos e fim da ideia de “carreira profissional”… Tão longe chegou esta geração de 68, profissionalmente muito bem sucedida aliás, como se pode apreciar pelos lugares que ocupam alguns dos mais conhecidos maoístas de então.

A nós, filhos dos jovens de 68, agora que estamos em 2008, resta respeitar os nossos pais, mas que pais devemos nós respeitar? Os pais de 68, jovens, irreverentes, revolucionários, que lutaram por aquilo em que acreditavam e saíram para a rua “contra tudo e contra todos”, ou pelo contrário, devemos respeitar os pais de hoje, amorfos e de braços caídos, argumentando a favor do “situacionismo neo-liberal” e da “inevitabilidade associada ao presente estado de coisas”. Na realidade, por mais que reflicta, não sei como gerir este cocktail quase esquizofrénico…