
Aproveitando a feliz coincidência de termos entre nós o antigo membro do movimento maoísta Gauche Prolétarienne e activista do Maio de 68, Olivier Rolin (que esteve em Lisboa para lançar o seu último livro, Suíte no Hotel Crystal) e ainda, o facto de este ano perfazem precisamente 40 anos sobre o Maio de 68, julgo ser oportuno pensar um pouco sobre o Maio de 2008.
O Maio de 68 foi espoletado por uma crise social em França. A juventude da época (onde pontificava, entre outros, Rolin) era revolucionária, utópica e radical e pretendia uma sociedade nova. Frases como “O amor ao poder” e a inspiração ideológica de cariz maoísta, levavam os jovens de então a acreditar que o futuro viria da Revolução Cultural chinesa (ainda que com alguma tónica libertária e anarca).
O Maio de 2008 é vivido com esses mesmos jovens de então (agora nos seus 60 anos), digníssimos Empresários, Gestores, Advogados, Engenheiros, etc… a dizer aos filhos (nos trintas, como eu), que não é racional pretender segurança laboral que o neo-liberalismo é a única doutrina económica possível e que as ideologias morreram em função do pragmatismo do “mercado comum”, da “união económica” e da “livre circulação de pessoas e capitais”.
Menos Estado, menos despesa pública, mais insegurança, melhor produtividade, mais despedimentos e fim da ideia de “carreira profissional”… Tão longe chegou esta geração de 68, profissionalmente muito bem sucedida aliás, como se pode apreciar pelos lugares que ocupam alguns dos mais conhecidos maoístas de então.
A nós, filhos dos jovens de 68, agora que estamos em 2008, resta respeitar os nossos pais, mas que pais devemos nós respeitar? Os pais de 68, jovens, irreverentes, revolucionários, que lutaram por aquilo em que acreditavam e saíram para a rua “contra tudo e contra todos”, ou pelo contrário, devemos respeitar os pais de hoje, amorfos e de braços caídos, argumentando a favor do “situacionismo neo-liberal” e da “inevitabilidade associada ao presente estado de coisas”. Na realidade, por mais que reflicta, não sei como gerir este cocktail quase esquizofrénico…
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