quinta-feira, 26 de junho de 2008

A Oposição que todos queríamos


Todos os dias ao abrir o jornal ultrapasso em grande velocidade as noticias internacionais, voo por cima das colunas de opinião e pelo sobe e desce da bolsa de valores e apenas dou uma olhada despiciente pelos aborrecidos suplementos desportivos. Afinal que procuro eu?

Simples, numa palavra apenas: Oposição. Não me interessa a politiquice do tipo “o que é que o fulano disse que melindrou o beltrano”, ou qual a última “gafe” de um qualquer membro do governo, interessa-me saber se Portugal, os seus partidos políticos e o seu povo em geral conseguem produzir oposição ao actual governo Socialista.

Este interesse reforçado pelo aparecimento que tarda de uma oposição digna de nota ao actual executivo tem uma razão de ser. Não fora a evidente instabilidade social aliada à quebra do grosso das promessas eleitorais Socialistas e talvez não me dedicasse, com tanto afinco, à procura de uma alternativa válida para o meu voto.

Acontece que se me é difícil conceber votar num partido que subverte e desvaloriza sistematicamente o sentido das suas promessas eleitorais, que diaboliza ora professores, ora sindicatos, ora juízes, ora médicos e professores, enfim, todos aqueles que se lhe atravessem no caminho. Contudo, lamentavelmente, a um ano das eleições (!), ainda não dei conta, nos jornais diários, na televisão, no parlamento, enfim, em qualquer lado, da existência de uma oposição capaz de captar o meu voto.

Oposição é criticar oportunamente cada passo do governo que conduz a resultados prejudiciais ao país, é demonstrar que os tão propalados “estudos” não são verdades universais, e que outras alternativas são igualmente validas, é ter um governo sombra que dê a conhecer ao país as caras que podem produzir mais trabalho e melhores resultados que os actuais governantes. Enfim, é ter estratégia de oposição. Essa era a Oposição conhecedora dos problemas e estudiosa das suas soluções que todos queríamos ter. Lamentavelmente, até à data, essa é precisamente a Oposição que não temos.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O “Alegre” desespero…



O partido Socialista definitivamente atravessa mais um momento muito complicado. Cerca de 200 mil cidadãos saíram à rua para protestar contra o Código Laboral que, pela discussão parlamentar parece ceder às pretensões neo-liberais de uns “estudos” que recomendam que despedir rápido é bom para atrair o investimento. No Parlamento, o seu governo foi, pela terceira vez, objecto de uma moção de censura. Na televisão ouviu Alegre admitir que pode deixar o PS após as críticas pessoais em tom absolutamente incaracterístico que José Lello dirigiu ao Vice-Presidente do Parlamento e histórico membro do partido Rosa.

Por outro lado, o deputado Jorge Strecht, no parlamento, casa da democracia, acusa os seus colegas deputados do Bloco de Esquerda de se comportarem como “animais” que “uivam” (o mesmo que em 2005 afirmava que deveriam ser tomadas medidas compensatórias para a "dignificação da função de deputado", como o aumento dos salários). Isto na presença de crianças de várias escolas que, das galerias do hemiciclo, escutavam meio embevecidas, meio divertidas o elevado nível da discussão promovida pelos deputados da primeira fila da bancada Socialista.

Podem ser apenas sintomas isolados, mas ao cidadão atento é facilmente apreensível que acabou o tempo daquele governo Socialista que tentou fazer as reformas que entendeu, contra (e não com) os Professores, contra (e não com) os Juízes, contra (e não com) os Funcionários Públicos, contra (e não com) os Sindicatos. Agora, como seria de esperar, parece começar a ser hora de pagar a factura das promessas eleitorais não cumpridas (por exemplo os 150.000 empregos, ou a “carga fiscal” que não seria agravada). Assim, com enorme crescimento das desigualdades sociais, bem assinalado por Mário Soares, e como não há folga para quem governa de forma subserviente a Bruxelas, apenas pensando no equilíbrio das contas, parece ter chegado o momento do “Alegre” desespero.