quarta-feira, 6 de maio de 2009

Moralizar… um pouco?

Diz o Bloco de Esquerda, acompanhado pela generalidade da restante classe política, que é preciso moralizar um pouco as remunerações dos gestores das principais empresas (como as do PSI 20, por exemplo). Ao fim destes meses todos de participações e apoios do Estado a empresas aflitas por causa da crise mundial, parece que vai ser aprovado um projecto-lei para impedir os ganhos desmesurados e os pára-quedas dourados dos gestores e administradores.

Acontece que, e a vida tem destas coisas, entre apelos à contenção salarial vindos de vários lados e reacções absolutamente surpreendentes contra uma hipotética “inveja social” que esta questão das remunerações dos gestores de topo suscita, tenho um feeling que me diz que em Portugal pouco ou nada se fará para moralizar esta questão.

Vejamos, em primeiro lugar, com “inveja social” ou sem ela, aliás ela pouco importa em face dos números, neste país foi possível deixar que os gestores de topo ganhassem cerca de 17 vezes mais que a média dos colaboradores.

Em segundo lugar, com “inveja social” ou sem ela, neste país foi permitido que a parte variável dessas remunerações dos gestores de topo, chegasse em alguns casos a uns impressionantes 70% do total. Evidente que tudo devidamente sustentado por um rácio de cenoura… Os resultados!

Bom, só que neste país (aliás, como na generalidade desse mundo por ai a fora), foi permitido que os “resultados” fossem conseguidos através de índices trimestrais de “performance” na bolsa… Está-se mesmo a ver no que isto ia dar… não está?

Explicando, com “inveja social” ou sem ela, os Senhores “gestores de topo”, durante anos pegaram em activos das empresas e “investiram” em qualquer coisa que “mexesse” na bolsa… Os chamados “fundos” (é ai que entra um tipo porreiro pá… Chamado Madoff… Já ouviram falar?), e por outro lado, a estratégia de ganhos passava ainda por estabelecer objectivos cada vez mais ambiciosos sobre resultados já muito suados, oferecendo em troca aos colaboradores uma qualquer espada luminosa ou uma meia dúzia de euros e um Ticket refeição para dois numa cantina de segunda à beira de uma qualquer poeirenta estrada nacional.

Isto é, ainda hoje, o estado de coisas nas principais empresas do PSI 20 (se bem que assistimos já a algumas reduções salariais nos gestores de topo, como nos casos do BCP e na PT). Claro que os “fundos” milagrosos já não estão mesmo ali à mão de semear, claro que os “resultados” maravilhosos estão para já contidos em relatórios e contas mais realistas e menos “trabalhados”, o que motivou, em alguns casos perdas de valor na ordem dos 30%.

Agora a questão que se deverá por é, moralizar apenas um pouco chega? Ou será preciso mais do que isso para que este descalabro não se possa repetir? Na realidade, os Portugueses devem pensar mesmo muito bem antes de votarem no próximo governo de Portugal…

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