Um dos jornais da nossa praça fez publicar (e bem) uma interessante e reveladora crónica tripartida de Manuel Maria Carrilho (MMC) sobre o “estado da arte” da vida partidária em geral e obviamente, em particular da vida partidária do PS.No primeiro capítulo, intitulado de “A implosão partidária” o seu autor parte de uma premissa “os partidos estão mesmo mal” para procurar as razões para esse facto, e encontra no “lastro Salazarista” que entende existir para transformar os partidos numa “variante do mal absoluto”, e ainda voa “en passant” sobre a “gigantesca abstenção” ou sobre a recente proliferação de “independentes” e à fragmentação do eleitorado e ao descrédito partidário, tudo se conjuga para criar um cocktail explosivo em que os partidos serão vitimas se, entretanto, nada se fizer.
Claro que MMC, ao seu melhor estilo, ainda chama ignorantes aos que acreditam que no mundo existem alguma experiência de sucesso com independentes e que na verdade, em Portugal não existem independentes, dado que, Roseta, Isaltino ou Carmona, são “dissidentes de ocasião”. Diz ainda que, lá fora é que é, isto porque, segundo MMC, os governos de Gordon Brown, Sarkozy, Zapatero ou Angel Markel, estão polvilhados de “quadros partidários” com “qualidade e experiência” que dão “garantias de competência” nas funções que ocupam.
A “receita” para este estado de coisas, segundo MMC, será os partidos (principalmente o PS) serem capazes de se reformar a si mesmos, combatendo o “conformismo” e “valorizando internamente a criatividade, a competitividade e a audácia”, com o objectivo de fomentar o “enraizamento popular” e a atracção de elites. Para tanto, defende MMC, que há que dinamizar um “think – tank” de referência e diversos blogs temáticos que “promovam o conhecimento sério e estimulem o debate aberto”.
Vamos agora condensar o pensamento do ex-candidato à CML. MMC, por um lado tem “medo que se pela” da nova experiência politica dos “independentes” – chama-lhes, numa palavra, de fraudes pois não lhes reconhece o estatuto (por causa de serem ex-filiados), e diz que não há memoria de países governados por “independentes”. Por outro lado MMC, ainda pretende utilizar a “blogesfera” como “veículo de conhecimento e debate aberto”, tudo isto para reformar os partidos e transforma-los em coisas de sucesso à imagem dos partidos dos restantes países da velha Europa.
Pois bem, vamos agora somar “2+2”. MMC quer convencer-nos que, qual bondosa personagem, isenta da sua quota de responsabilidades no processo que conduziu ao actual estado do PS, apresenta a formula do que se “passa lá fora” (como se na França, Espanha, ou Inglaterra, o sistema politico vivesse dias de frescura e vigor… só visto), para defender uma reforma “por dentro dos partidos” em ordem de os “salvar” da “ameaça” chamada “independentes” e para tanto, com despudor, propõe-se a transformar a “Blogsfera” num veiculo da propaganda gasta do PS, sob o pretexto de que nela se efectuarão debates “livres e abertos”.
O que MMC não parece saber, ou quer esconder que já sabe, é que o futuro faz-se andando para a frente e não andando para trás. E nessa dinâmica que envolve em primeira linha as novas tecnologias, os Partidos Políticos, que congregam um conjunto cada vez menos representativo do país real, estão condenados a serem meros “antros de caciques”, e de “pretendentes” a lugares sem capacidade afirmativa para os ocuparem (veja-se as eleições no PSD). E que com a descida de nível na discussão politica também vai descer o nível de interesse da população votante.
Tal estado de coisas não se combate banindo os “independentes” ou utilizando a “blogsfera” a favor das ideias do PS ou de outro partido. Tal estado de coisas combate-se quando os Partidos Políticos promoverem a abertura verdadeira de toda a sociedade e de todos os lugares da sociedade (empresas, serviços, administração) a todos os que demonstrem capacidade para ocupar tais lugares. É que MMC não engana ninguém, e se ignorar que em Portugal ainda se está na época feudal, em que os filhos de “beltrano e sicrano” é que ocupam os lugares de topo nas empresas e nos partidos, então o ignorante é ele, o que não deixa de ser mais grave do que parece.
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